O Mandarim, Eça de Queirós

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“… nesse meio realista contemporâneo e banalizado, o artista português, habituado a belas cavalgadas pelo ideal, sufocaria; e se ele não pudesse vez ou outro dar uma escapadela para o azul, rapidamente morreria de nostalgia dos seus sonhos.”

Eça de Queirós sobre O Mandarim

A resenha de hoje falará então sobre o conto O Mandarim, a ‘escapadela para o azul‘ de Eça de Queirós!

Sobre O Mandarim

Publicado em 1880 em forma de folhetim no Diário de Portugal, Eça de Queirós aposta na fantasia e comicidade para apontar problemas sociais e políticos através deste conto. Ele, assim, visa deixar uma lição de moral para os leitores.

“Mas, ainda na sua atividade mais resumida, a vida é um bem supremo: porque o encanto dela reside no seu princípio mesmo e não na abundância das suas manifestações”.

Afasta-se do seu meio realista-naturalista ao qual suas outras obras, como por exemplo O primo Basílio, Os Maias ou A Cidade e as Serras, entre outros, pertencem.

Como prólogo, Eça escolheu uma cena da Comédia inédita.

Sinopse

A história passa-se em Portugal, provavelmente por meados de 1880. Teodoro, o personagem principal, leva uma vida bastante medíocre, até que um dia, ao ler um livro, encontra nele uma medalha de ouro e umas linhas bem misteriosas:

“No fundo da China existe um mandarim mais rico que todos os reis de que a fábula ou a história contam. Dele nada conheces, nem nome, nem o semblante, nem a sedade que se veste. Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha […] Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver: e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição de um avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campanhia?”

Surge, ainda, nesse mesmo momento o diabo que o convence a tocar a campainha… Um mês depois, Teodoro ganha, como por coincidência, uma fortuna razoável. Começa então a curtir a vida de milionário, demostrando, pouco tempo depois, uma certa sensação de superioridade para com as pessoas.

Infelizmente, a sorte dele não dura muito, pois pelo visto o dinheiro está mal-assombrado: em vários momentos começa a ver o falecido chinês Ti Chin-Fu, cujo dinheiro havia herdado; encontra-se perseguido por “uma figura bojuda de mandarim fulminado, vestida de seda amarela […] e entre os braços […] um papagaio de papel.”

O desespero de Teodoro chega a ser tão intenso que ele decide partir para a Ásia em busca da família do falecido para cuidar dela e retribuir uma parte do dinheiro. Esse plano, porém, não dá muito certo, e Teodoro volta para Portugal onde continua perseguido pelas alucinações que sua subconsciência produz. Encontra outra vez o diabo, mas este obviamente não se mostra a disposição de ajudar. Teodoro, então, vê-se com o seu testamento feito:

“E a vós, homens, lego-vós apenas, sem comentários, estas palavras: ‘Só sabe bem o pão que dia a dia o ganham as nossas mãos: nunca mates o mandarim!’ E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta ideia: que do norte ao sul e do oeste ao leste, desde a Grande Muralha da Tartária até as ondas do mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesse suprimir e herdar-lhe os milhões, ó leitor, criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão!”

Pensamentos e reflexões

Podemos perceber, neste último parágrafo, qual a moral da história. Eça, em poucas páginas (pouco mais que 100), conseguiu deixar um legado que até hoje continua atual. Ouso dizer que talvez mais atual que nunca, tendo em vista a globalização.

Vejamos só como para nós é fácil comprar roupa barata que uma pobre mulher no Bangladesh produziu, ganhando praticamente nada, e ainda trabalhando sob condições certamente inseguras e desumanas. Por que não sentimos remorsos por explorar pessoas tão vulneráveis – parece até que o direito a uma vida digna para elas não vale?

Simplesmente porque para nós – que sempre nos julgamos tão inteligentes – é uma grande dificuldade realmente sentirmos a relação causa-e-efeito quando o efeito das nossas causas está acontecendo do outro lado ou só muitos anos depois (digo, aquecimento global).

O filósofo alemão Hans Jonas tentou elaborar uma “Ética da Responsabilidade” para analisar e resolver mais esse tema, vale a pena conferir O Princípio Responsabilidade (Eu mesma já li e recomendo MUITO).

Sobre o Autor

Eça de Queirós nasceu em Póvoa de Varzim, Portugal em 1845.

Foi um dos mais importantes escritores portugueses da história. Escreveu, entre outros, Os Maias, considerado por muitos o melhor romance realista português do século XIX. Suas obras foram traduzidas para quase 20 línguas.

Faleceu em Paris, França em 1900.

Para conferir uma biografia completa de Eça e outros autores lusófonos, clique aqui.

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Espero que tenham gostado da resenha de hoje, há mais livros de Eça esperando por sua resenha aqui (Os Maias, O primo Basílio e A Cidade e as Serras), então aguardem! 😉

Já leu alguma coisa de Eça de Queirós? Comenta aqui embaixo!

Até a próxima e boas leituras a todos!

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Uma consideração sobre “O Mandarim, Eça de Queirós”

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