Leituras do mês de Agosto

Oi pessoal! Tudo bem?

Decidi fazer um post sobre as leituras de cada mês do ano, então está aqui o saldo literário de agosto 2016 😀

Em ordem cronológica:

  • Um dia (One Day), de David Nicholls
  • Capitães da Areia, de Jorge Amado
  • Iracema, de José de Alencar
  • A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós
  • O Mandarim, de Eça de Queirós
  • O Alienista, de Machado de Assis

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Um dia (One Day), de David Nicholls

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Primeira leitura de agosto, confesso que não gostei tanto. Não odiei, mas simplesmente não me cativou. A princípio achei interessante a ideia do David Nicholls de retratar o relacionamento dos dois personagens principais num determinado dia (15 de julho) durante vinte anos, só que dessa maneira achei meio difícil para me envolver com os personagens. Várias vezes, momentos importantes ficaram de lado porque não aconteceram no dia 15 de julho, mas sim no dia seguinte, por exemplo.

Acho que é um livro tocante pela história num total, principalmente o final é bastante triste e comovente,  mas não iria ler de novo.

Capitães da Areia, de Jorge Amado

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Minha primeira experiência com Jorge Amado, e amei!! Achei a história extremamente realística e tocante, me envolvi de vez com os personagens e até hoje sinto falta das aventuras de Pedro Bala, Professor, Pirulito e o resto dos Capitães da Areia!

Já vi muita gente falando que a linguagem do Jorge Amado é demaisiadamente simples para ele ser considerado um grande escritor, mas discordo completamente. Uma vez acho que a linguagem não é tudo, de nada adianta se a história é chata e não nos toca; e por outro lado acho que, ao menos em Capitães da Areia, nenhum outro tipo de linguagem poderia ser melhor. A simplicidade de Jorge Amado combina perfeitamente com o enredo e é um fator importante que torna a obra num total mais autêntica.

Iracema, de José de Alencar

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Quando eu comprei, não sabia nada a respeito nem da obra, nem de José de Alencar… Peguei então, pensando que iria ler rapidinho, talvez numa sentada só, já que é fininho.

Quem já teve que ler imagina o meu desespero quando li as primeiras linhas, não entendi NADA. Li outra vez, nada. Ai já fiquei nervosa, pensando que meu português não seria bom o suficiente e fui pesquisar para ter pelo menos uma ideia melhor do enredo, como ajuda. Percebi então que, de fato, esse livro é dificilíssimo e que eu não era a única que teve dificuldades. José de Alencar já é famoso por uma linguagem clássica, mais complicada, mas fora isso, ele primeiro havia escrito Iracema em forma de poema épico, cheio de vocabulário indígeno (e por consequência, muitas notas explicativas já na época!). Quando ele percebeu que ficou muito complicado para o público da época (imagine eu então que falo português há só 5 anos!!), ele reescreveu em prosa. Porém sem muito sucesso, pois continua bastante complexo.

Durante minha leitura (demorada e sofrida), parei depois de cada capítulo para anotar o que havia acontecido. Se eu percebi que não conseguia, fui reler as últimas páginas, e assim foi até o fim. Foi meio chatinho, mas me mostrou que querendo consigo ler até a mais difícil obra de José de Alencar, então pelo orgulho de ter conseguido ler, valeu a pena! Hahaha

A Cidade e as Serras e O Mandarim, de Eça de Queirós

Livros que eu amei demais! A Cidade e as Serras foi divertidíssimo e o conto O Mandarim realmente me surpreendeu muito com sua mensagem e a atualidade dele, vale muito a pena ler esses dois. Foram meus primeiros contatos com Eça e já estou ansiosa para ler mais!!!

Resenha completa A Cidade e as Serras

Resenha completa O Mandarim

O Alienista, de Machado de Assis

Outro livro que também já foi resenhado aqui no CPC, O Alienista é um conto perfeitamente machadiano e muito querido, que aborda a tênue fronteira entre loucura e normalidade.

“Não se luta contra o destino: o melhor é deixar que nos pegue pelos cabelos e nos arraste até onde queira alcançar-nos ou despenhar-nos.”

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Então, foram essas as leitura do mês de agosto, mesmo mês em que o CPC teve o seu início. Espero muito que tenham gostado e que essas mini-resenhas tenham despertado em vocês um interesse por estes livros. Desejo muito boas leituras a todos, até o próximo post!!

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TBR Outubro 2016

Oi pessoal! Tudo bem?

Chegou o mês de outubro, mês do Halloween! Então nada melhor do que entrar no clima com umas leituras assustadores e excitantes, não é? Por isso separei uns livros que pretendo ler nas próximas semanas:

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Stephen King: The Girl who loved Tom Gordon

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Esse livro está na lista por dois motivos: nunca li nada o Stephen King e já está mais do que na hora, né? E o segundo motivo é que, de fato, já comecei a ler no início do ano, só que larguei na metade porque não achei muito interessante. Basicamente, o que aconteceu foi que a menina se perdeu na floresta e foi picada por muitos mosquitos. Dizem que nos livros do Stephen King o começo sempre é mais demorado, então vou dar uma segunda chance nesse mês do terror!

Shilpa Menon: Scars do Heal

14424069_1014752861955362_88579307_oScars do Heal é um livro bem exótico, nem sei dizer se foi traduzido para outros idiomas. A autora, Shilpa Menon, é de Maurícia (fica ao lado do Madagascar). Minha madrinha mora lá e me deu, na verdade, dois livros para eu conhecer a literatura de lá. Estou bem curiosa!

Sonal Kapoor da Índia e sua filha moram em Londres. O passado de Sonal foi difícil, aconteceu alguma coisa grave (acredito que ela foi violentada, pois no prefácio fala que o estupro é um dos maiores crimes contra a mulher, mas só vou poder confirmar depois de lido), e embora ela tente esquecer, simplesmente não consegue se livrar das sombras do passado. Entra na vida dela um tal de Dr. Ryan Percy que parece um homem dos sonhos…

Edgar Allan Poe: Histórias Extraordinárias

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O último livro que separei para outubro é um clássico que também já está esperando por ser lido há um tempinho: As histórias extraordinárias do E.A. Poe!

Quem comprou foi minha mãe e eu peguei porque além de clássico tem tudo a ver com o clima de terror.

Na nossa edição tem 12 contos, a maioria curtinhos, outros mais extensos, então pretendo ler um a cada dia e ir lendo até o fim do mês. É legal porque permite que eu leia outro livro ao mesmo tempo 😀

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Geralmente não sou muito boa em seguir planos assim. Posso planejar as leituras do mês inteiro e mesmo assim acabo lendo outros livros ou em ordem diferente. Por isso separei apenas 3 livros e deixo aberto outros livros para ler esse mês. Esses três, porém, devem ser lidos até o fim de outubro!

Vocês também planejaram alguma coisa para ler esse mês ou têm o costume de fazer isso? Ou são, como eu, mais espontâneos na escolha dos livros?

Desejo ótimas leituras a todos, que outobro seja um mês de muitas conquistas literárias!!

 

Leituras do mês de Setembro

Oi pessoal! Tudo bem?

Já faz um tempinho que não tivemos mais post aqui, mas foi por bons motivos! Fui completamente tomada pelos meus livros! Esse mês rendeu muito bem, com 10 livros lidos (deu 1.468 páginas!!!). Assim o total de livros lidos de 2016 subiu para 42, cada vez mais perto da meta de 50!

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Mas agora chega de enrolação e vamos ver quais os livros que foram lidos neste setembro!

Em ordem cronológica:

  • Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago
  • O planeta Berra, Edgard Romanelli
  • Mulheres de Cinza, de Mia Couto
  • Apelo do Dalai Lama (Releitura)
  • A Metamorfose, de Franz Kafka (Releitura)
  • O Homem da Areia, de E.T.A. Hoffmann (Releitura)
  • Fausto, de J. W. Goethe (Releitura)
  • O Profeta, de Khalil Gibrain
  • O Pequeno Príncipe, de A. De Saint-Exupéry
  • The Girls, de Emma Cline

Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago14383302_1002340216529960_1574608304_n

O primeiro livro lido foi também o meu primeiro contato com Saramago. E o que dizer? Me apaixonei não só por este livro, como também pelas propostas de outros livros dele que, naturalmente, foram parar na lista infinita de livros que quero ler!

Sobre o Ensaio em si posso dizer que foi um dos livros que mais me envolveram e tocaram esse mês (até esse ano!), e recomendo muito sua leitura! Com certeza virou um dos favoritos da vida!

Para saber mais, é só clicar aqui e conferir a resenha que já foi feita aqui no CPC 🙂

O Planeta Berra, de Edgard Romanelli

Foi lido mais por diverção mesmo do que por interesse rsrs

Li numa sentada e até que gostei, da proposta principalmente, mas não foi o melhor livro infantil que já li.

Mulheres de Cinza, de Mia Couto

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No primeiro livro da trilogia moçambicana As Areias do Imperador, Mia Couto narra os horrores do colonialismo em Moçambique e conhecemos crenças africanas tão exóticos como fascinantes, e as vezes, assustadores.

Já tem resenha aqui no CPC também! 🙂

O segundo volume, Sombras da Água, foi lançado pela Cia. Das Letras esse mês!

Apelo do Dalai Lama ‘Ética é mais importante que religião

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Esse livrinho é incrível!

Nas duas leituras (primeira em fevereiro deste ano) eu li numa sentada só (até porque são somente umas 50 páginas).

A mensagem é muito importante, julgo um livro que TODOS devem ler pelo menos uma vez na vida, sendo crente ou não, pois nos faz lembrar que devemos, em primeiro lugar, ser pessoas que tem o amor ao próximo como base de suas ações, independente de sua religião. Não é uma determinada religião que nos diz se uma pessoa é do bem ou não, mas a forma que a pessoa pratica os valores do bem com os quais todos nós já nascemos. Tanto que sabemos de muitos conflitos e guerras que foram causadas por religiões!

A Metamorfose, de Franz Kafka

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Foi uma de várias releituras desse mês. Já tive que ler na escola (para quem não sabe, frequentava a escola na Alemanha), e percebi que nunca havia terminado de ler! (Não sei como isso aconteceu, sério mesmo, mas deve ter sido porque havia muitas provas e trabalhos na época)

Então tomei vergonha na cara e li outra vez e até o final.

Acredito que já deve ter muitas resenhas em outro blogs, então nem vou entrar muito em detalhes. Basicamente, temos o Gregor Samsa que um certo dia, ao acordar se depara com o fato de ter, vamos dizer, mudado BASTANTE. Essa mudança, que não só mas principalmente se manifesta na sua aparência gera uma série de graves problemas para ele. A forma que ele e sua família lidam com a situação é certamente… ‘kafkaesco’?

O Homem da Areia, de E.T.A. Hoffmann

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Conto de por volta de 40 páginas, O Homem Da Areia foi outra releitura desse mês. Como a Metamorfose, também tive que ler na escola e quis ver se, lendo por livre e espontâne vontade, eu iria gostar mais dele (defendo a tese de que leituras obrigatórias destruam o prazer de ler).

E realmente gostei bem mais que da primeira vez, o que me fez testar o mesmo experimento com o Fausto:

O Fausto, de J.W. Goethe

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É considerado a maior obra da Literatura alemã, então senti uma certa vontade de reler sem ser obrigatório, como nos tempos da escola (falando assim parece que já faz anos que saí da escola haha sendo que faz nem 4 meses…)

Gostei mais, principalmente porque acho muito legal que é todo em verso e RIMA, mas ainda não me conquistou 100%,  porque em várias partes é muito demorado sem que nada de essencial aconteça…

Prefiro mesmo a literatura brasileira!

O Profeta, de Khalil Gibrain

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Khalil Gibrain foi um poeta do Líbano, sendo assim minha primeira experiência com literatura dessa região, e amei

O Profeta é um livro profundamente poético. Cada capitulozinho nos traz a sua visão a respeito de determinados tópicos como amor, filhos, amizade, doença, liberdade, política,…

Concordei com muitos pontos de vista dele, e acredito que pode servir como guia para quem tiver o desejo de refletir mais sobre a vida. Creio também que, mesmo que pequeno (umas 100 páginas) o livro é bastante complexo e requer uma segunda, terceira, quem sabe quarta ou quinta leitura para realmente absorver todos os pensamentos e teses de Khalil Gibrain! Recomendo muito!!

O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry

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Acredito que todo mundo já conhece e mesmo quem ainda não leu, sabe que esse livro infantil (que certamente não se restringe ao universo infantil, leiam adultos! Rsrs) fala sobre amizade e afeto e serve como grandiosa fonte de citações a respeito 😉

The Girls, de Emma Cline

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Por fim, li ainda The Girls. Procurei, mas pelo visto a Intrínseca acabou não lançando mais, ao menos não consegui mais achar nada a respeito.

Tive grandes expectativas que esse livro iria ser muito interessante, mas confesso que me decepcionei um tanto quanto. Não foi ruim e li bem rápido, mas o foco do livro era simplesmente outro que eu esperava. Pensei que iria tratar mais da comunidade hippie ou dos assassinatos cometidos por eles (como prometido na contra-capa), mas a maior parte ficou falado sobre a vida da protagonista, relação com os pais divorciados, solidão por só ter uma amiga, seus problemas gerais de encontrar seu lugar no mundo… Porém, com certeza não é um livro com público alvo de meninas dessa idade, devido a várias cenas vulgares e um clima de desvalorização da mulher, obediência dela ao homem como um fato que não possa ser evitado ou combatido.

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Enfim, foram essas as leituras do mês de setembro que rendeu bastante!

Espero que tenha inspirado vocês para suas próximas leituras e que um ou outro dos livros acima tenham despertado interesse em vocês!

Ótimas leituras a todos e que outbro seja um mês de muitas leituras maravilhosas!

Esses dias terá um post falando sobre os planos e expectativas de leitura para outubro!

A Cidade e as Serras, Eça de Queirós

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“E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha Sande, constituímos modos diversos de um ser único, e as nossas diversidades esparsas somam na mesma compacta unidade. Moléculas do mesmo todo, governadas pela mesma lei, rolando para o mesmo fim… Do astro ao homem, do homem à flor do trevo, da flor do trevo ao mar sonoro – tudo é o mesmo corpo, onde circula, como sangue, o mesmo deus.”

Sobre o livro

A Cidade e as Serras é o último romance de Eça de Queirós, publicado em 1901 após a sua morte. Foi escrito com base no conto “Civilização” (1892), e opõe dois estilos de vida. Por um lado, a vida rural, tradicional e simples, representada pela cidade de Tormes, situada no interior português; e do outro lado, a vida urbana e civilizada, representada por Paris, cidade que, na época, é considerada a mais moderna e civilizada de todas as capitais europeias.

A obra encaixa-se no realismo, e é a que mais reflete a civilização industrial dentro do gênero. Eça critica a revolução industrial, a urbanização acelerada e seus efeitos à sociedade  do século XIX.

“Assim, meu Jacinto, na Cidade, nesta criação tão antinatural onde o solo é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o céu, e a gente vive acamada nos prédios como paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se misturam através de arames – o homem aparece como uma criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um espírito que é passivo como um escravo ou impudente como um histrião (palhaço)…”

O tema continua atual, podendo ser ligado aos tempos atuais, marcados pela rapidez, tecnologia e pelo consumismo avançado nos países industriais, que se encontra em grande contraste com a vida simples e precária em países em desenvolvimento.

Sinopse

O personagem principal de A Cidade e as Serras é Jacinto, neto de Jacinto Galião – figura importante de Portugal. Após a morte do pai, Jacinto (o protagonista), é criado pela avó, em Paris. Herda mais tarde uma grande fortuna dela e, assim, vive uma vida repleta de luxo e conforto, aparentemente sem preocupações.

É na universidade que faz amizade com Zé Fernandes, nosso narrador. Desta época ele desfruta a gosto de todas as amenidades que Paris pode lhe oferecer. Passa a defender e idealizar a civilização e a ciência, chegando à conclusão de que é apenas no meio civilizado que o homem pode ser feliz.

No entanto, mais tarde, ele nota que nem a posse sobre uma biblioteca privada de 30.000 volumes nem a aquisição de todas as máquinas possíveis, preenche o vazio que ele começa a sentir. Suas leituras de Schopenhauer deixam-no ainda mais para baixo.

Antes de entrar num desespero total, recebe uma carta que o força a uma viagem para as Serras Portuguesas. É nesta época que uma série de mudanças se passam com ele…

Pensamentos e Reflexões

Ao contrário do que muita gente pensa, A Cidade e as Serras não é um livro chato ou monótono. Teve váários momentos em que eu ri bastante, ri mesmo! Esse livro é, na verdade, divertidíssimo!

Além disso é bastante reflexivo, aborda não só o assunto da ciência e da industrialização, como também cogita sobre religião, filosofia, tradições e preceitos, entre outros.

A linguagem de Eça é lindíssima e apaixonante. No começo pode parecer um pouco difícil, mas é só deixar-se levar que se acostuma rapidinho.

A um todo, amei muito a leitura desse livro sensacional e recomendo muito! Livram-se de preconceitos e deem uma chance a essa maravilha divertida, cheia de pensamentos bacanas e escrita em uma linguagem tão envolvente ❤

Sobre o Autor

Eça de Queirós nasceu em Póvoa de Varzim, Portugal em 1845.

Foi um dos mais importantes escritores portugueses da história. Escreveu, entre outros, Os Maias, considerado por muitos o melhor romance realista português do século XIX. Suas obras foram traduzidas para quase 20 línguas.

Faleceu em Paris, França em 1900.

Para conferir uma biografia completa de Eça e outros autores lusófonos, clique aqui.

Espero que tenham gostado 🙂

Até a próxima e boas leituras a todos!

 

 

O Mandarim, Eça de Queirós

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“… nesse meio realista contemporâneo e banalizado, o artista português, habituado a belas cavalgadas pelo ideal, sufocaria; e se ele não pudesse vez ou outro dar uma escapadela para o azul, rapidamente morreria de nostalgia dos seus sonhos.”

Eça de Queirós sobre O Mandarim

A resenha de hoje falará então sobre o conto O Mandarim, a ‘escapadela para o azul‘ de Eça de Queirós!

Sobre O Mandarim

Publicado em 1880 em forma de folhetim no Diário de Portugal, Eça de Queirós aposta na fantasia e comicidade para apontar problemas sociais e políticos através deste conto. Ele, assim, visa deixar uma lição de moral para os leitores.

“Mas, ainda na sua atividade mais resumida, a vida é um bem supremo: porque o encanto dela reside no seu princípio mesmo e não na abundância das suas manifestações”.

Afasta-se do seu meio realista-naturalista ao qual suas outras obras, como por exemplo O primo Basílio, Os Maias ou A Cidade e as Serras, entre outros, pertencem.

Como prólogo, Eça escolheu uma cena da Comédia inédita.

Sinopse

A história passa-se em Portugal, provavelmente por meados de 1880. Teodoro, o personagem principal, leva uma vida bastante medíocre, até que um dia, ao ler um livro, encontra nele uma medalha de ouro e umas linhas bem misteriosas:

“No fundo da China existe um mandarim mais rico que todos os reis de que a fábula ou a história contam. Dele nada conheces, nem nome, nem o semblante, nem a sedade que se veste. Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha […] Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver: e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição de um avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campanhia?”

Surge, ainda, nesse mesmo momento o diabo que o convence a tocar a campainha… Um mês depois, Teodoro ganha, como por coincidência, uma fortuna razoável. Começa então a curtir a vida de milionário, demostrando, pouco tempo depois, uma certa sensação de superioridade para com as pessoas.

Infelizmente, a sorte dele não dura muito, pois pelo visto o dinheiro está mal-assombrado: em vários momentos começa a ver o falecido chinês Ti Chin-Fu, cujo dinheiro havia herdado; encontra-se perseguido por “uma figura bojuda de mandarim fulminado, vestida de seda amarela […] e entre os braços […] um papagaio de papel.”

O desespero de Teodoro chega a ser tão intenso que ele decide partir para a Ásia em busca da família do falecido para cuidar dela e retribuir uma parte do dinheiro. Esse plano, porém, não dá muito certo, e Teodoro volta para Portugal onde continua perseguido pelas alucinações que sua subconsciência produz. Encontra outra vez o diabo, mas este obviamente não se mostra a disposição de ajudar. Teodoro, então, vê-se com o seu testamento feito:

“E a vós, homens, lego-vós apenas, sem comentários, estas palavras: ‘Só sabe bem o pão que dia a dia o ganham as nossas mãos: nunca mates o mandarim!’ E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta ideia: que do norte ao sul e do oeste ao leste, desde a Grande Muralha da Tartária até as ondas do mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesse suprimir e herdar-lhe os milhões, ó leitor, criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão!”

Pensamentos e reflexões

Podemos perceber, neste último parágrafo, qual a moral da história. Eça, em poucas páginas (pouco mais que 100), conseguiu deixar um legado que até hoje continua atual. Ouso dizer que talvez mais atual que nunca, tendo em vista a globalização.

Vejamos só como para nós é fácil comprar roupa barata que uma pobre mulher no Bangladesh produziu, ganhando praticamente nada, e ainda trabalhando sob condições certamente inseguras e desumanas. Por que não sentimos remorsos por explorar pessoas tão vulneráveis – parece até que o direito a uma vida digna para elas não vale?

Simplesmente porque para nós – que sempre nos julgamos tão inteligentes – é uma grande dificuldade realmente sentirmos a relação causa-e-efeito quando o efeito das nossas causas está acontecendo do outro lado ou só muitos anos depois (digo, aquecimento global).

O filósofo alemão Hans Jonas tentou elaborar uma “Ética da Responsabilidade” para analisar e resolver mais esse tema, vale a pena conferir O Princípio Responsabilidade (Eu mesma já li e recomendo MUITO).

Sobre o Autor

Eça de Queirós nasceu em Póvoa de Varzim, Portugal em 1845.

Foi um dos mais importantes escritores portugueses da história. Escreveu, entre outros, Os Maias, considerado por muitos o melhor romance realista português do século XIX. Suas obras foram traduzidas para quase 20 línguas.

Faleceu em Paris, França em 1900.

Para conferir uma biografia completa de Eça e outros autores lusófonos, clique aqui.

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Espero que tenham gostado da resenha de hoje, há mais livros de Eça esperando por sua resenha aqui (Os Maias, O primo Basílio e A Cidade e as Serras), então aguardem! 😉

Já leu alguma coisa de Eça de Queirós? Comenta aqui embaixo!

Até a próxima e boas leituras a todos!

O Alienista, Machado de Assis

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“Tudo era loucura. Os ocultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de anagramas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia, os que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro almotacé enfunado, ninguém escapava aos emissários do alienista.”

Sobre O Alienista

Publicado em 1882, é considerado o primeiro conto realista brasileiro.

Destaca-se pela relativização, marca da obra machadiana, que é o tema central do conto: Como definir a tão tênue fronteira entre normalidade e loucura? Onde começa a anormalidade? Ao longo da discussão deste indefinido limite critica o cientificismo do final do século XIX e coloca em pauta a questão do poder. Nesse sentido, a Casa Verde pode ser vista como personificação do pessimismo machadiano: nada é absoluto, tudo é relativo:

“Não se luta contra o destino: o melhor é deixar que nos pegue pelos cabelos e nos arraste até onde queira alcançar-nos ou despenhar-nos.”

Sinopse

O Alienista conta a história de Simão Bacamarte, doutor extraordinário, que volta ao Brasil após concluir sua formação na Europa. É na cidade de Itaguaí que ele pretende estabelecer-se, e, certo dia, decide se dedicar aos estudos da psiquiatria, pois para ele, “a saúde da alma é a ocupação mais digna do médico”.

Constrói, então, o manicômio Casa Verde. Em pouco tempo, o local passa a abrigar um grande número de ‘loucos’ da vila e da região, deixando a restante população preocupada.

“.. os olhos dele, empanados pela cogitação, subiam do livro ao teto e baixavam do teto ao livro, cegos para a realidade exterior, videntes para os profundos trabalhos mentais.”

Ocorre, inclusive, a Revolução dos Canjicas, formada por habitantes de Itaguaí que querem pôr fim às internações de Bacamarte, o que resulta em mais uns novos pacientes para a Casa verde.

Quando Bacamarte começa a perceber que sua teoria estava errada, repensa-a várias vezes até chegar à conclusão de que, sendo ele o único com mente perfeito, ele deve ser o anormal. Toma então as medidas necessárias…

Sobre Machado de Assis

Nasceu no Morro do Livramento, Rio de Janeiro, em 1839.

Amplamente considerado o maior escritor brasileiro, escreveu em praticamente todos os gêneros literários, deixando assim um legado extenso e de imensurável valor cultural.

Menino mulato, pobre, gago, epilético e de pouca instrução nasceu com todos os requisitos para uma vida fracassada. No entanto demostrou-se como gênio literário.

Foi um dos fundadores e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.

Faleceu no Rio de Janeiro em 1908.

www.machadodeassis.org.br

Espero muito que tenham gostado da resenha! Com certeza podem aguardar outras resenhas de obras machadianas mais para frente!

Comentem aqui embaixo se já leram O Alienista ou qualquer outra obra de Machado!

Boas leituras a todos!

 

Ensaio sobre a cegueira, José Saramago

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Já pensou? Ser um médico reconhecido, ser, talvez, oftalmologista?
Está, então, no seu consultório, se preparando para a próxima consulta, uma simples conjuntivite, quando recebe uma ligação telefônica nada comum: um homem cegou do nada, no meio do trânsito. Caso curioso, hein? Meia hora depois o coitado chega no seu consultório e realmente, o homem está completamente cego! Pelo jeito que ele se articula, você como especialista percebe logo que não poder fazer muito tempo que os olhos dele lhe abandonaram. Mas os sintomas de sua cegueira, uma cegueira branca!, não se encaixam em nenhum caso já conhecido. Você lhe passa alguns exames e então ele vai embora. Quando, de noite, você consulta todos os seus livros acadêmicos atrás de uma dica, atrás da solução, num virar de páginas, acontece o inacreditável: você também cegou.

Sobre o livro

É isso que acontece com um dos personagens principais de Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Como o próprio título já diz, trata-se de um ensaio, um texto que expõe ideias e reflexões do autor sem ser muito formal.

A história passa-se em algum país não definido a um momento não definido da história da humanidade, podendo se julgar atual (Saramago menciona carros, máquinas de lavar etc). Isso permite que o enredo poderia acontecer a qualquer momento em qualquer lugar, ou seja, temos aqui um ensaio universal.

Característica típica de Saramago, não notamos um grande respeito com as regras de pontuação,o que torna a leitura, no começo, um pouco mais devagar, porém não interfere em nada o prazer da leitura.

Sinopse

Num dado momento, as pessoas de uma cidade não definida começam, então, a cegar. A cegueira é altamente contagiosa e parece não ter explicação científica. No início, o governo resolve colocar os cegos dentro de um antigo manicômio, que está sem uso há um tempo (e encontra-se em devidas condições…), para evitar que a cegueira se espalhe. Esse plano acaba falhando, mas a esta altura os personagens principais já estarão todos ‘presos’.

Dentre os cegos presos temos o oftalmologista e sua esposa (a única pessoa que não chega a cegar), uma menina de óculos escuros, um rapazinho estrábico, o primeiro cego e sua mulher e um velho de venda preta. Enquanto no mundo de fora, tanto as relações sociais quanto a infra-estrutura se dissipam, no mundo do manicômio acontecem coisas absolutamente desumanas.

“Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.”

Sem a ajuda de ninguém a orientação torna-se uma tarefa extremamente difícil em um lugar desconhecido. Não só enfrentam os cegos grandes dificuldades para achar banheiros, por exemplo, como o próprio governo, responsável pelo cativo deles, não consegue (ou não está nem aí?) proporcionar aos presos a quantidade de comida necessária, isto, até que mesmo do lado de fora ninguém mais vê.

A escassez de alimento torna as pessoas, que já estão desesperadas com a situação, em seres egoístas e sem juízo, havendo brigas violentas entre grupos que se formaram, até que num dado momento, devido a um dado acontecimento, as pessoas conseguem sair do manicômio. São obrigadas, então, a se virarem do lado de fora, tarefa que mesmo com a ajuda da mulher do médico (única pessoa não cega) se mostra difícil…

Pensamentos e reflexões

Uma curiosidade é que não há descrição de fatos visuais em em grande parte do livro. Isto faz com que nos sintamos igualmente cegos e perdidos quanto a localidades e à aparência das pessoas. Por outro lado, essa condição permite uma liberdade muito grande para a nossa fantasia e imaginação, o que proporciona a cada leitor uma experiência única.

A forma com que Saramago reduz a humanidade às necessidades e afetos mais básicos, abrindo a nossa mente para o quão cegos nós somos todos os dias mesmo com os olhos perfeitamente saudáveis, é assustador.

“Só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são.”

É notável a percepção negativa que ele tem da humanidade, e o que mais assusta, é o quão realísticos os acontecimentos parecem ser. Sem exagero, apenas uma tentativa de ver a crueldade de uma humanidade que abdicou de quaisquer regras socais por pura necessidade de sobrevivência. Pensar que seríamos todos capazes de agir desta forma quando expostos a uma semelhante situação, que o que nos impede de ser “a coisa” que ele menciona, só porque a convivência na nossa sociedade e o estilo de vida não estão o requerendo no momento, faz pensar que a humanidade é uma bomba tiquetaqueando…

Sobre o autor

José Saramago nasceu em Golegã, Azinhaga, Portugal em 1922.

Foi o único autor de língua portuguesa a receber o Prémio Nobel de Literatura (1998). Escreveu também O Evangelho segundo Jesus Cristo, As Intermitências da Morte, Memorial do Convento, entre várias outras obras.

Faleceu em 2010, Lanzarote, Ilhas Canárias

Fundação José Saramago: www.josesaramago.org

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E vocês, já leram O Ensaio sobre a Cegueira ou outras obras dele? Comentem aqui embaixo!

Espero muito que tenham gostado, boas leituras a todos!